Wednesday, September 13, 2006

A problemática dos macacos

Simpatizo com os macacos. Gosto da forma como tentam falar, da maneira desajeitada como andam, até aprecio os gestos algo obscenos que, certamente sem o perceberem, aqui e ali fazem. Mas chega de falar da Juve Leo. Voltemos aos macacos. Eu, se fosse macaco (e peço às leitoras e ao Carlos Castro, neste ponto, para ignorarem a manta de pêlos que me cobre o peito e que lhes preenche as fantasias mais íntimas), não descansaria enquanto algumas injustiças bastante graves não fossem de uma vez por todas erradicadas. Desde logo, o facto de cada um de nós não ter direito à sua própria Isabel Figueira. Depois, toda a descriminação latente à expressão “tirar macacos do nariz”. Na verdade, há todo um processo de humilhação subjacente ao uso desta expressão. É como se, ao a usarmos, estivéssemos a defender que há algo de semelhante entre o muco em estado sólido que nos infecta o nariz e o pobre animal. O que é, por mais talentosos que possamos ser ao nível dos trabalhos artesanais, manifestamente falso.
Mas a injustiça para com os macacos vai ainda mais longe. Senão pensemos: se um pedaço de tamanho médio de porcaria nada e criada ao nível do nariz é um macaco, então por que é que um pedaço de tamanho grande e espesso não é um gorila? Ou, para sermos ainda mais realistas na abordagem desta intrincada problemática, por que é que a esses pedaços maiores não se dá o nome de Alexandre Frota? Seria, estou certo, bastante mais elucidativo. Imaginemos a frase, já tradicional, da mãe que se dirige ao filho dizendo “Pedrito, moncoso dum raio, tens um macaco a sair do nariz, limpa-o” transformada numa bem mais real “Pedrito, moncoso dum raio, tens um Alexandre Frota a sair do nariz, vai espreitar pela janela a ver se o teu pai chega enquanto eu me divirto aqui com ele.” Seria, convenhamos, imensamente mais esclarecedor.
Infelizmente, são muito poucos os que procuram debruçar-se, com a lucidez que este tema merece, sobre esta questão fulcral da sociedade portuguesa, preferindo centrar as suas atenções em questões laterais como o défice, a educação, o sistema de saúde ou o corte de cabelo do Paulo Bento. Ora, com excepção deste último, todos esses temas são secundários. É fundamental focalizar a atenção sobre a questiúncula que hoje, numa prova de grande coragem, decidi trazer à praça pública. E há uma razão muito forte para que o seja: é parva. Como se não bastasse, acrescento ainda outra razão que, a bem da verdade, não poderia deixar de ser exteriorizada: é estúpida. Poderão os mais puristas tentar rebater as razões indiscutíveis que acabei de expor com o argumento de que o défice ou o sistema de saúde são parte integrante da base de sustentação do nosso país e do bem-estar dos seus cidadãos. Mas isso é pura demagogia.
Contudo, há ainda mais expressões que eu, se fosse macaco (e volto a chamar a atenção para o facto de eu, embora haja quem diga que tenho algumas parecenças com o Tom Cruise – o que não é despiciendo -, não ser, na verdade, um macaco), faria questão de combater, fazendo uso, para tal, de todos os meios legais à minha disposição – o que, a confirmar-se eu ser um macaco, se resumiriam a cuspir na banana que me dessem no Jardim Zoológico ou mesmo a libertar excrementos de forma bem visível e audível sempre que um grupo de turistas se aproximasse (este último acto de protesto iria causar-me, pela certa, alguns problemas ao nível do aparelho defecador – mas, se o José Castelo Branco aguenta, eu também aguento).
Atentemos, então, na expressão “fulano X está a fazer macacadas a fulano Y”. Há duas coisas que me parecem francamente erradas nesta expressão. Primeiro, julgo ser, no mínimo, inverosímil que exista algum fulano a quem os pais tenham dado o nome de X ou de Y. Segundo, não entendo o que passou pela cabeça de quem inventou a palavra fulano. Terceiro (constato agora que escrevi, algumas linhas acima, que eram somente duas as coisas que me pareciam erradas na expressão, o que só vem dar razão aos professores de Matemática que, ao longo da minha carreira académica, faziam questão de me prendar com vistosos e redondos zeros, acompanhados, muitas vezes, por um olhar de desdém e pelas palavras “És burro que nem – e aqui está outra grande injustiça sobre a qual me debruçarei noutra ocasião – uma porta”), a unidade lexical “macacadas” é mais uma forte e incompreensível afronta à classe dos macacos. Parece-me indiscutível que nenhum macaco é capaz de fazer “macacadas” de forma tão perfeita como os humanos. Suspeito mesmo que, no dialecto macaquense (que, apesar de ter sido inventado por mim neste exacto momento, tem já muitos milhares de anos de existência), aquilo que para nós é uma “macacada” para eles é uma “humanada”, ou, sempre que um árbitro apita um penalty contra o Sporting, uma “palhaçada” – o que nos remete para uma outra problemática, também ela bastante pertinente, que é a da injustiça que é cometida sobre os palhaços em geral e sobre os políticos em particular.
Tenho para mim que, para os macacos, o ser humano não é mais do que um macaco muito menos desenvolvido intelectualmente e incapaz de articular uma frase de forma minimamente coerente. Mas, sinceramente, agora não me apetece nada falar do Avelino Ferreira Torres.